SOBRE2026

Segundo dia da SOBRE2026 coloca crise climática no centro do debate sobre restauração

14 de agosto de 2026

No segundo dia da SOBRE2026, em 28 de julho, a plenária "Restauração e Crise Climática: Mitigação, Adaptação e Justiça", mediada por Isabel Schmidt, debateu a crise climática no contexto da restauração. A professora Mercedes Bustamante, titular da UnB e diretora do Instituto de Ciências Biológicas, abriu o debate destacando que a mudança climática já provoca eventos extremos, a temperatura vai continuar subindo e a conta do CO₂ na atmosfera será paga por muitas décadas, mesmo que as emissões sejam zeradas. Os limites de 1,5 a 2 graus de aquecimento serão ultrapassados ao longo do século. Diante deste contexto, a restauração se torna peça central da mitigação. O potencial global de sequestro de carbono, porém, ainda é incerto e drenos naturais já respondem à mudança do clima com mais incêndios e florestas captando menos carbono. A professora apresentou um dado que reorientou a discussão: se o desmatamento fosse contido, as emissões por mudança de uso do solo cairiam 96%. Segundo ela, a restauração importa, mas a alavanca principal é prevenir o desmatamento. "Restauração é central para alavancar a agenda em todos os biomas brasileiros", afirmou.

A adaptação entrou na pauta com Mateus Silva, pesquisador da Universidade de Exeter. Diante de mapas que mostram a riqueza de espécies nos biomas brasileiros, Silva explicou que a estratégia de coleta de sementes busca locais o mais próximos possível que se adaptem ao clima futuro, gerando mapas de priorização para orientar a escolha de espécies. Ele lembrou que ecossistemas degradados podem levar muito tempo para se recuperar e apontou a inércia como um dos maiores riscos, ao lado de discussões sobre fluxo gênico assistido e migração assistida como caminhos possíveis para uma restauração que leve em conta o clima que vem pela frente.

Tamikuã Txihi, liderança indígena, trouxe para o debate uma leitura que conectou a crise climática à invasão colonizadora e ao silenciamento dos conhecimentos dos povos originários. Ela contou a história da terra indígena Jaraguá, o Tekoa Itakupe, descrevendo o trabalho de recuperação da mãe terra feito com a força da comunidade. em uma fala contundente, destacou a memória das sementes nativas que trazem alimento e de como, com a recuperação, as comunidades poderão comer do próprio território. "Vamos construir o jardim da vida para todos vocês", disse, defendendo que não se pode pensar em restauração sem olhar para a memória dos territórios e sem conhecer os saberes dos povos originários. "Tem que olhar para a terra com o coração", afirmou.

Elizete Barreto, fecheira da Comunidade Tradicional de Fecho de Pasto Clemente, no Cerrado, trouxe números que retratam a pressão que vem sofrendo esse bioma. Ela relatou que mais de 50 comunidades de fechos de pasto realizam manejo sustentável de cerca de 150 mil hectares de Cerrado em pé. Mas destacou a perda de aproximadamente 97% do território das comunidades para empresas agroexportadoras, o que provocou o desmatamento e a morte de mais de 50 nascentes, além da perda de canais de irrigação usados há mais de cem anos.Os impactos da crise climática são sentidos nos rios ameaçados de secar, mais incêndios e alteração do ciclo das chuvas. Diante disso, lea defendeu o manejo do fogo como prática ancestral, a criação de abelhas e a regularização fundiária como garantia para continuar o que aprenderam com os ancestrais. Encerrou com uma pergunta que ecoou no auditório: "A partir do nosso território e vivências, o que estou fazendo para contribuir?"


Simpósio discute como plataformas de dados podem ir além do repositório e orientar decisões em restauração


O simpósio "Dos Insumos ao Chão, o que nos dizem as Plataformas de Dados da Restauração", realizado na manhã desta terça-feira, 28 de julho, discutiu o papel das plataformas como ferramentas analíticas de inteligência para a tomada de decisão, indo além do repositório e da divulgação de dados. A mediação foi de Alessandra Nasser Caiafa, diretora da SOBRE, que abriu o debate destacando que as plataformas reúnem dados de natureza distinta e que a sinergia entre elas pode ampliar a capacidade de apoiar decisões estratégicas na cadeia da restauração.

Thiago Serrano, biólogo e curador da Vitrine da Restauração da SOBRE, apresentou o Índice de Prontidão Territorial para a Restauração (IPTR), proposta que transforma dados da cadeia em ferramenta de tomada de decisão. O índice integra diferentes dimensões para entender a capacidade dos territórios de sustentar e ampliar a restauração e é composto por cinco indicadores: capacidade operacional, de governança e articulação, de formação profissional, científica do bioma e institucional de políticas públicas. Serrano explicou que o IPTR pretende subsidiar o planejamento territorial em diferentes escalas, apoiando política pública, investimento e monitoramento da cadeia.

A Vitrine organiza os dados em seis camadas que conectam os diferentes públicos da plataforma: fornecedores de serviços e insumos, instituições de pesquisa e ensino, movimentos em prol da restauração, viveiros comunitários e coletores de sementes, políticas públicas e ensino e programas de pós-graduação.

Tainah Godoy, secretária executiva do Observatório da Restauração e coordenadora da Coalização Brasil, explicou que a plataforma reúne dados sobre projetos e iniciativas de restauração em escala nacional com o objetivo de mapear quem faz a restauração e o quanto se faz. O Observatório nasceu dentro da Força-Tarefa de Restauração da Coalização, cujo foco é o uso sustentável da terra. Godoy trouxe o exemplo do antigo arco do desmatamento, região entre o sudeste do Amazonas e o Pará, que por iniciativa de diferentes instituições busca se transformar em um arco da restauração, aproveitando as oportunidades.

Bárbara Paes, do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, apresentou a plataforma geoespacial do Pacto, que mapeia áreas prioritárias e monitora o progresso de projetos de recuperação florestal em 17 estados brasileiros, integrando dados de centenas de instituições parceiras com total transparência. O Pacto, criado em 2009 e pioneiro entre os movimentos biomáticos, tem a meta de recuperar 15 milhões de hectares até 2050. Paes lembrou que a Mata Atlântica se destaca com dados positivos no índice de prontidão territorial e citou o projeto Alto Iguaçu, conduzido pela unidade regional do Pacto no Paraná, com meta de 42 hectares de restauração e palntio de 11 mil mudas.

Roberta del Giudice, diretora de florestas e políticas públicas da BVRio, discutiu o potencial dos dados territoriais para orientar políticas públicas. Apresentou o conceito de dataficação, o processo de transformar aspectos da vida e do território em dados digitais, e observou que antes se sabia que uma região estava degradada por visita de campo e hoje dados geoespaciais mostram com mais alcance. Del Giudice alertou que dados não são neutros e dependem de quem interpreta e de quem se beneficia, defendendo que comunidades locais estejam no centro da geração e do uso dos dados e que não haja controle apenas por grandes organizações. "Se não atender a necessidade de regionalização dos benefícios e inclusão, as políticas públicas podem aprofundar a desigualdade", afirmou.

Alessandra Caiafa encerrou destacando que as plataformas deixaram de ser repositórios e se tornaram produtos analíticos, lembrando que a colaboração entre elas é essencial para se tornarem instrumentos potentes de tomada de decisão.

A SOBRE2026 aconteceu de 27 a 31 de julho na Universidade de Brasília (UNB). O evento é uma realização da Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica com apoio da Araticum (Articulação pela Restauração do Cerrado), e conta com patrocínio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).




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