SOBRE2026

Plenária do quarto dia discute a relação entre conservar e restaurar

14 de agosto de 2026

O quarto dia da SOBRE2026, em 30 de julho, começou com a plenária "Conservar e Restaurar: parceria necessária", mediada por Vera Lex Engel, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica (SOBRE). A mesa reuniu experiências dos biomas Amazônia, Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica, com dados de pesquisa e relatos de quem vivencia a restauração nos territórios. Joice Nunes Ferreira, ecóloga da Embrapa em Belém e cofundadora da Rede Amazônia Sustentável, apresentou um estudo realizado entre 2010 e 2020 na Amazônia Oriental. Com base em uma região que registrou 129,5 mil hectares em regeneração, mas perdeu 158 mil hectares devido ao desmatamento e 273,5 mil hectares degradados por fogo e exploração de madeira, ela apresentou uma pesquisa que comparou três alternativas — evitar distúrbios (fogo e exploração madeireira), evitar desmatamento e promover restauração — para determinar a melhor opção.

A pesquisa considerou uma modelagem que incluiu 160 espécies de aves e 426 espécies de árvores, com amostragens em 38 microbacias e 381 transectos, além de estudos socioeconômicos em 499 propriedades rurais. A conclusão foi que evitar distúrbios traz o maior benefício para a biodiversidade, enquanto a restauração isolada tem benefício muito baixo quando comparada à prevenção da degradação. Para ela, restauração e conservação juntas já compensam grande parte da perda de biodiversidade, mas só ultrapassam o prejuízo com a combinação das três alternativas.

José Moacir dos Santos, pedagogo e presidente do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), em Juazeiro (BA), relatou a experiência de recaatingamento em comunidades tradicionais de fundo de pasto no semiárido de Pernambuco e Bahia. Em uma área de mil hectares, as famílias que vivem da Caatinga preservam 80% do território e seguem uma regra comunitária de não desmatar.

No território, a experiência do recaatingamento ocorre em duas frentes: recuperar áreas degradadas e manejar a caatinga ainda em pé. Com a ajuda das comunidades, foram identificadas as áreas degradadas, que foram isoladas e sofreram intervenção com plantio de mudas, recuperação da água e regularização fundiária para proteção. Em dois anos, o número de plantas dobrou nas áreas trabalhadas. Hoje são 36 mil hectares em conservação e 2 mil em recuperação, com agregação de valor econômico pelo beneficiamento de umbu, entre outras ações. "A caatinga é uma poupança para defender nosso modo de vida, e a comunidade é a guardiã para defender o bioma", disse.

Giselda Durigan, pesquisadora do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA) desde 1984, discutiu os limites e a hierarquia entre conservação e restauração. No Cerrado, um estudo realizado em 29 áreas de pastagem em regeneração mostrou que as árvores se desenvolvem bem e rebrotam, mas o estrato rasteiro, onde está concentrada cerca de 80% da diversidade do bioma, evolui lentamente e terá mais dificuldades quando as copas fecharem.

Durigan apontou a falta de estudos sobre a resiliência ao fogo das áreas restauradas e fez uma crítica: "Só sequestrar carbono sem garantir biodiversidade e sem incluir o tema água não é restauração."


Em 2009 montaram um experimento com sementes de árvores, até que Alexandre Bonesso Sampaio, pesquisador do ICMBio, mostrou que o Cerrado é uma savana e, neste contexto, plantar apenas árvores resulta em um bosque, não em Cerrado restaurado. A partir daí, passaram a coletar e plantar sementes do estrato rasteiro. A associação reúne 240 famílias de 17 comunidades ao redor do Parque, sendo metade quilombolas do Território Kalunga. Setenta por cento dos coletores são mulheres, e a venda de sementes já gerou R$ 5 milhões. Utilizam plantio mecanizado com muvuca de sementes e contam com 40 coletores, que também atuam como brigadistas, fazendo manejo integrado do fogo em parceria com o Parque Nacional. "Quando se restaura o Cerrado, se restauram famílias e se traz vida", disse.




Oficina do Dispersar propõe planejamento de ações formativas a partir de problemas reais


No quarto dia da VI Conferência Brasileira de Restauração Ecológica, a SOBRE2026, o Programa Dispersar realizou a oficina "Ações formativas em restauração ecológica: planejamento orientado à resolução de problemas". A atividade, conduzida com moderação de Lucas do Amaral Afonso e facilitação de Marlúcia Bonifácio Martins, Carol Sacramento, Tatiane Gomes Calaça Menezes, Luiz Felipe Souza e Natalia Guerin, convidou os participantes a repensarem como capacitações e treinamentos no setor da restauração são desenhados, partindo do princípio de que toda formação começa pela identificação de um problema concreto que ela precisa ajudar a resolver.

A dinâmica começou com os participantes compartilhando o maior desafio que já enfrentaram em uma ação formativa. A partir desse painel, a oficina mostrou que um mesmo tema pode exigir formatos e conteúdos completamente diferentes conforme o público e o objetivo. O exemplo trabalhado foi a coleta de sementes, que pode demandar formação para viveiristas sobre germinação ou para equipes de campo sobre diversidade nas áreas restauradas, com desenhos distintos para cada caso.

Para estruturar a reflexão, os grupos preencheram coletivamente um canvas com seis dimensões: problema, público, objetivos, conteúdos, metodologia e avaliação. Cada grupo recebeu um caso prático, apresentou sua proposta e, em seguida, todos identificaram escolhas que se repetiram entre as diferentes propostas, discutindo o que essas recorrências revelam sobre o que faz uma boa ação formativa.

No encerramento, Luiz Felipe Souza contextualizou o que o Dispersar trouxe para a oficina e como esses princípios se aplicam às atividades cotidianas do programa. Ele explicou que todas as instituições que atuam com restauração enfrentam dificuldades em promover formação e que o papel do Dispersar é justamente apoiar outras organizações nessa tarefa, ajudando-as a estruturar capacitações que respondam a problemas reais. Os casos práticos trabalhados durante a oficina, segundo ele, retratam situações do dia a dia do programa e foram escolhidos para que os participantes pudessem se reconhecer nas situações propostas. Lucas do Amaral Afonso encerrou a atividade com uma pergunta aos participantes: o que você vai mudar na sua próxima ação formativa?


RSC destaca restauração inclusiva e socioprodutiva como estratégia para fortalecer comunidades no Cerrado


A oficina "Restauração Socioprodutiva no Cerrado e na Caatinga: caminhos para a inclusão, resiliência e justiça climática", realizada na quinta-feira, 30 de julho, na SOBRE2026, mostrou como a restauração ecológica pode ir além da recuperação da vegetação e se tornar estratégia de desenvolvimento territorial. A palestra foi conduzida por Maria Eduarda Camargo, gestora de restauração da Rede de Sementes do Cerrado (RSC), e Madalena Ferreira, coletora de sementes da Rede de Sementes do Paraíso, no norte de Minas Gerais.

Maria Eduarda apresentou os princípios da restauração inclusiva, baseada no engajamento de diferentes grupos locais, na integração entre conhecimentos científicos e tradicionais, na construção participativa das decisões e na distribuição justa dos benefícios. Segundo ela, a RSC atua com esse modelo em cerca de 1.200 hectares nos corredores de biodiversidade do Cerrado, com as comunidades presentes em todas as etapas, do diagnóstico à execução. Destacou também os Sistemas Agrocerratenses (SACEs), que conciliam restauração com produção de alimentos e geração de renda, e defendeu metodologias construídas com as comunidades em vez de soluções padronizadas. "A restauração ecológica não deve seguir uma receita de bolo, mas incorporar tecnologias sociais e soluções locais capazes de responder aos desafios específicos de cada região", afirmou.

Madalena Ferreira detalhou o trabalho da Rede de Sementes do Paraíso, que abrange todas as etapas, da coleta ao plantio, e promove educação ambiental com crianças nas escolas. Apresentou uma inovação territorializada: o aproveitamento dos resíduos do beneficiamento de frutos e sementes para compostagem, gerando substrato de melhor qualidade para a semeadura direta e reduzindo custos. "Percebemos uma melhora significativa nos resultados. Além disso, essa prática gera economia, porque aproveitamos um material que antes seria descartado", contou.

A oficina reuniu ainda experiências da Caatinga com tecnologias sociais voltadas ao enfrentamento da seca e da desertificação. Maria Eduarda encerrou destacando que enfrentar desafios globais como a crise climática exige soluções construídas nos territórios. "A restauração inclusiva coloca as comunidades no centro das estratégias de conservação e desenvolvimento, promovendo benefícios ambientais, sociais e econômicos de forma integrada", finalizou.


Sessão Saiba Mais reúne quatro plataformas de dados da cadeia da restauração


A programação de 30 de julho incluiu também a sessão "Saiba Mais — Conhecendo as Plataformas de Apoio à Restauração de Ecossistemas no Brasil", mediada por Alessandra Caiafa, secretária geral da SOBRE. O encontro apresentou quatro plataformas que organizam, integram e visualizam dados da restauração em diferentes escalas e biomas, com destaque para suas funcionalidades, formas de cadastro e reporte de informações.

Thiago Serrano apresentou a Vitrine da Restauração da SOBRE, que organiza e visualiza toda a cadeia da restauração e configura o maior banco de dados da área no Brasil. Manuel Eduardo Ferreira trouxe a plataforma da Araticum, que reúne dados espaciais sobre áreas de restauração e outras temáticas ambientais do bioma. Bárbara Paes apresentou a plataforma do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, que mapeia áreas prioritárias e monitora o progresso de projetos em 17 estados. Rafaela Guimarães encerrou com o Observatório da Restauração, que acompanha e retrata a evolução das iniciativas de restauração em todos os biomas brasileiros por meio do autorreporte de dados.

A sessão reforçou que as plataformas são complementares, apresentando especificidades para atender diferentes dimensões da teia da restauração. A integração entre elas fortalece a capacidade de diagnóstico, planejamento e tomada de decisão na restauração ecológica.

A SOBRE2026 aconteceu de 27 a 31 de julho na Universidade de Brasília (UNB). Trata-se de um evento realizado pela Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica com apoio da Araticum (Articulação pela Restauração do Cerrado), e contou com patrocínio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).




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