SOBRE2026

Última plenária da SOBRE2026 discute financiamento inclusivo e os gargalos da restauração no Brasil

14 de agosto de 2026

A plenária "Financiamento para uma Restauração Diversa e Inclusiva", mediada por Rodrigo Junqueira, abriu o último dia da SOBRE2026, em 31/07/2026. Junqueira lembrou estarmos na Década da Restauração, com o Planaveg em movimento e a meta de restaurar 12 milhões de hectares até 2030. A reflexão, segundo ele, deve considerar os recursos disponíveis e, sobretudo, onde o dinheiro está chegando. Sérgio Leitão, fundador e diretor executivo do Instituto Escolhas, foi incisivo ao afirmar que o Brasil não tem condições institucionais para ser financiado na escala necessária. Ele apontou que ainda não há ministério, secretaria nacional ou autoridade de recuperação florestal dentro do governo federal que dispute recursos e tome decisões. Raphael Stein, gerente do Departamento de Meio Ambiente do BNDES, explicou que o banco opera com financiamento reembolsável e não reembolsável. No primeiro, os recursos saem por chamadas públicas e editais, com prioridade para projetos nos quais as comunidades participem da proposta. Segundo ele, o grande objetivo do banco é valorizar a floresta em pé, gerando renda e subsistência. Stein destacou que o orçamento do Fundo Clima aumentou de R$ 200 milhões para R$ 2 bilhões por ano, mas faltam projetos com empresas estruturadas que enxerguem oportunidade de negócio na floresta em pé. Defendeu o investimento em inovação para reduzir custos e antecipar a renda que a floresta pode gerar.

Jéssica Pedreira, engenheira florestal do ISPN, trouxe a perspectiva de descolonizar o financiamento. Com atuação junto a indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e agricultores familiares, o Fundo Ecos já apoiou mais de mil projetos de mais de 500 organizações em 25 estados e no Distrito Federal, mobilizando cerca de US$ 30 milhões. Pedreira reforçou a necessidade de pensar a relação da restauração com o tecido social e a regularização fundiária, questionando como conciliar a demanda dos grandes financiadores por uma restauração orientada por metas, com a visão de quem está no território, onde a semente encontra a terra.

Fabrícia Santarem, liderança gerazeira do Redário, coordenadora da Araticum e co-presidente da SOBRE2026, sintetizou o debate ao informar que menos de 1% do financiamento chega às comunidades, com recursos diluídos pelas organizações intermediárias. Defendeu que os projetos de restauração precisam de, no mínimo, cinco anos e que não se pode querer diminuir o custo, porque existem pessoas e modos de vida envolvidos e o objetivo não é o lucro. Destacou que a voz das comunidades não é ouvida nesses debates e que o acesso ao financiamento é burocratizado, mas celebrou o fato de as comunidades conseguirem fazer boa gestão dos recursos.


Cerimônia de encerramento celebra diversidade, apresenta carta do II EIRE e projeta a SOBRE2028


A cerimônia de encerramento da SOBRE2026 foi uma oportunidade para a comissão organizadora fazer um balanço da conferência e a leitura de documentos construídos coletivamente durante a semana. O coordenador científico, Daniel Vieira, fez uma reflexão sobre a trajetória do evento, lembrando que a conferência nasceu pequena e predominantemente acadêmica, cresceu e se tornou abrangente e diversa, consolidando-se como o grande encontro da rede completa da restauração. "Que possamos nos encontrar em 2028 e que seja grande, diversa e inclusiva", afirmou.

A Comissão de Diversidade e Inclusão foi convidada a se pronunciar, representada por Juliana Rocha, da TNC e da Araticum, e Luana Carvalho, presidente da Rede Nativas. Elas leram uma carta com oito recomendações construídas a partir da experiência nesta edição: institucionalizar a comissão de diversidade e inclusão; manter a diversidade como compromisso transversal; fortalecer a construção participativa da programação; manter a diversidade de modalidades de sessões; integrar o Vozes da Restauração à programação oficial; instituir o reconhecimento para novas lideranças, para além da academia; consolidar mecanismos permanentes de acessibilidade e participação; e monitorar os indicadores de diversidade.

Isabel Schmidt, vice-presidente da SOBRE2026 e umas das responsáveis pela captação de recursos, destacou que a destinação dos valores buscou contemplar a inclusão em todas as frentes. Como nas conferências anteriores, o evento ofereceu cuidado às crianças para que os pais pudessem participar dos debates. Outro cuidado mantido foi a isenção de inscrição para povos tradicionais e povos indígenas, além de apoio à vinda de estudantes com alojamento acessível. O evento contou com 83 voluntários de todo o país.

As co-presidentas Anabele Gomes e Fabrícia Santarem encerraram com mensagens que resumiram o espírito da edição. Anabele ressaltou a satisfação de ver a universidade habitada por pessoas que representam diferentes perfis da comunidade restauradora do Brasil. Fabrícia agradeceu a participação de todos, especialmente as pessoas de base comunitária, manifestando a grata satisfação por ter alcançado o objetivo de tornar esta edição da conferência mais inclusiva.

O encerramento reservou espaço para a leitura da carta do II EIRE — Segundo Encontro Indígena de Restauração Ecológica, que reuniu 75 pessoas representantes de todos os biomas, 42 terras indígenas e 37 etnias. O documento afirma que, para os povos indígenas, a restauração é indissociável da cultura, da espiritualidade e do território. Entre as demandas, pede que os biomas sejam reconhecidos e tratados com a mesma prioridade da Amazônia nas políticas públicas e nos financiamentos climáticos, com acesso para povos indígenas e comunidades. Reivindica a criação de linhas de crédito próprias para povos indígenas, com participação direta e protagonismo na gestão dos recursos, e pede que parceiros apoiem a formação de uma segunda turma de multiplicadores indígenas em restauração ecológica, a construção de protocolos para a participação das comunidades em todo o processo e a luta pelo reconhecimento dos territórios. O debate refletiu avanços iniciados com a realização do I EIRE durante a SOBRE2024, que incentivou a participação inédita dos povos indígenas no evento.

A SOBRE2026 aconteceu de 27 a 31 de julho na Universidade de Brasília (UNB). O evento é uma realização da Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica com apoio da Araticum (Articulação pela Restauração do Cerrado), e conta com patrocínio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).




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