Quem faz a SOBRE

Iara Romano aprendeu com os avós a ter curiosidade sobre a natureza

28 de outubro de 2026

Engenheira florestal, ritmista da Mangueira e criadora do Germinar, a associada da SOBRE atua na restauração ecológica do Rio de Janeiro

A engenheira florestal Iara Romano, associada da SOBRE, ainda era criança quando aprendeu com as avós a respeitar e a ter curiosidade pela natureza, ensinamentos que ela considera fundamentais para despertar seu interesse pela Engenharia Florestal.

Formada pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e mestra em Ciências Ambientais e Florestais pela mesma instituição, ela encontrou na restauração ecológica um caminho para unir conhecimento científico, atuação prática e transformação socioambiental. Hoje, integra a Coordenação de Restauração Ecológica da Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade do Rio de Janeiro (SEAS), no Programa Florestas do Amanhã.

Foi na graduação, por meio de um professor que admira, que ela conheceu a Restauração Ecológica, um encontro que ela descreve como amor à primeira vista. Desde então, a trajetória profissional acompanhou os temas que orientavam seus estudos.

Mas a biografia de Iara não se limita ao cuidado com as florestas. Ela contou à SOBRE que é ritmista da Estação Primeira de Mangueira, cantora e batuqueira no carnaval carioca. Para ela, a música, a cultura e o ativismo são espaços de encontro, expressão e construção coletiva, valores que compartilha com a restauração ecológica.

Foi durante a SOBRE 2024, em Juazeiro (BA), às margens do Rio São Francisco, que a jovem restauradora esteve entre as criadoras do Germinar, rede que fortalece a participação de jovens na restauração ecológica no Brasil.

Na entrevista a seguir, ela conta como chegou à Engenharia Florestal, as experiências que marcaram sua atuação, a criação do Germinar e as expectativas para o futuro da restauração.


SOBRE: Conte um pouco sobre você. Como é sua relação com o meio ambiente?


Minha relação com o meio ambiente começou muito antes da universidade. Minhas avós me ensinaram a respeitar e a ter curiosidade pela nossa biodiversidade e acredito que esses ensinamentos foram fundamentais para despertar meu interesse pela Engenharia Florestal. Mais tarde, durante a graduação, tive contato com a Restauração Ecológica por meio de um professor que admiro muito. Foi amor à primeira vista! Encontrei nessa área não apenas um campo de estudo, mas também uma fonte de esperança frente a um mundo que caminha rumo ao negacionismo climático, além de uma possibilidade concreta de contribuir para o enfrentamento da crise ambiental. Além de floresteira, também sou ritmista da Estação Primeira de Mangueira, cantora, batuqueira no carnaval carioca, ativista, produtora cultural e tantas outras Iaras! A música, a cultura e o ativismo são partes fundamentais da minha trajetória. São espaços de encontro, expressão, resistência e construção coletiva, valores que levo comigo para a restauração ecológica. Afinal, acredito que cuidar dos nossos ecossistemas também passa por reconhecer as pessoas, os territórios, as culturas e os vínculos que nos conectam.


SOBRE: Por que escolheu ser engenheira florestal?


Conheci o curso por meio de uma amiga, que me disse que eu precisava conhecer a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. E ela estava certa! Fui para Seropédica (onde fica a universidade) assistir a aulas de Arquitetura como ouvinte, quando conheci o Instituto de Florestas e decidi que aquele seria o meu curso.
Quando conheci a Restauração Ecológica na graduação, percebi que havia encontrado um caminho em que poderia unir conhecimento científico, atuação prática e transformação socioambiental. Comecei a estudar o tema e, aos poucos, direcionei meus estudos e minha trajetória profissional para essa área.
Em um cenário de agravamento da crise climática e de tantos desafios ambientais, a restauração me mostra que, embora os impactos humanos no sistema capitalista sejam profundos, também é possível agir para recuperar ecossistemas, reconstruir paisagens e fortalecer nossa relação com a biodiversidade.


SOBRE: Conte sobre suas principais experiências profissionais, destacando os principais aprendizados.


Durante dois anos, estagiei na Embrapa Agrobiologia, em um período que coincidiu com a pandemia. Nesse trabalho, participei do Diagnóstico do Setor Produtivo de Mudas e Sementes Florestais para a Cadeia de Restauração do Estado do Rio de Janeiro. A experiência me ajudou a compreender a importância da estruturação da teia da restauração, especialmente da produção de sementes e mudas de espécies nativas, para viabilizar projetos de restauração no estado do Rio.
Posteriormente, atuei como pesquisadora voluntária no Instituto Internacional para a Sustentabilidade (IIS), no setor de Conservação da Biodiversidade e Restauração de Ecossistemas, ampliando meu contato com a pesquisa e com as questões científicas que orientam as estratégias de conservação.
Em 2022, iniciei minha trajetória no Instituto Estadual do Ambiente (Inea), como estagiária na Gerência de Fiscalizações Ambientais e, depois, efetivada como fiscal ambiental, função que exerci até 2024. Em seguida, passei a atuar na Gerência de Serviço Florestal do Inea, contribuindo para atividades relacionadas à restauração, ao manejo florestal sustentável e ao setor de sementes e mudas florestais. Essa experiência aproximou ainda mais minha atuação profissional dos temas que já orientavam meus estudos. Foi uma honra trabalhar com a equipe da DIBAPE!
Neste ano, defendi meu mestrado, com a dissertação Monitoramento da Restauração Ecológica no Estado do Rio de Janeiro: avaliação da trajetória sucessional de áreas em restauração pela Resolução Inea nº 143/2017. A pesquisa aprofundou meu interesse pelo monitoramento como ferramenta para avaliar a efetividade das ações de restauração, principalmente por alinhar a pesquisa ao meu trabalho com as políticas públicas.





SOBRE: Conte sobre a experiência de criar o Germinar e por que considera importante a participação de jovens na teia da restauração.


O Germinar nasceu de uma experiência muito especial durante a SOBRE de 2024. Naquele ano, mobilizamos uma caravana de estudantes que saiu de ônibus do Rio de Janeiro rumo a Juazeiro, para participar do congresso. Às margens do Velho Chico, o Germinar foi criado para fortalecer a participação de pessoas jovens e em início de trajetória na restauração ecológica no Brasil. Queríamos que esse espaço fosse além dos muros da academia, aproximando pessoas, ideias e diferentes formas de atuação na restauração. Acredito que a participação da juventude é fundamental para renovar perspectivas, estimular o pensamento crítico e construir novas possibilidades. Também é uma forma de dar continuidade aos esforços de tantas pessoas que vêm trabalhando há anos para consolidar a restauração ecológica no país. Criar o Germinar foi uma maneira de transformar encontros e inquietações em mobilização coletiva. Mais do que reunir jovens nesse mundo, queremos fortalecer uma rede capaz de colaborar, aprender em conjunto e ampliar a diversidade de vozes envolvidas na restauração. Afinal, a juventude não é apenas o futuro da restauração, ela já faz parte do presente e tem muito a contribuir para os caminhos que estamos construindo.

SOBRE: Quais são seus planos futuros?



Quero continuar aprofundando meus conhecimentos e minha atuação no mundo da restauração ecológica, especialmente na interface entre ciência, políticas públicas e implementação dos projetos. Acredito que ainda temos muito a avançar no aprimoramento de estratégias que garantam não apenas os plantios, mas também o monitoramento dos resultados no longo prazo e a permanência dos processos ecológicos ao longo da sucessão ecológica.
Também quero seguir contribuindo para o fortalecimento da cadeia produtiva da restauração, reconhecendo o papel de viveiros, coletores de sementes, pesquisadores, comunidades tradicionais, povos indígenas e todas as pessoas envolvidas nessa atividade.

SOBRE: O que você espera para o futuro da restauração?



Espero que a restauração ecológica seja cada vez mais reconhecida como uma estratégia essencial para a conservação da biodiversidade, a adaptação às mudanças climáticas e a recuperação das áreas degradadas e dos serviços ecossistêmicos. Para isso, precisamos avançar na integração entre ciência, políticas públicas, financiamento, monitoramento e fortalecimento de toda a sua teia, garantindo que os projetos tenham qualidade técnica e continuidade ao longo do tempo.
Também espero que a restauração seja compreendida para além do plantio de árvores. Restaurar envolve recuperar processos ecológicos, respeitar as características de cada ecossistema, valorizar o conhecimento tradicional local e reconhecer que são as pessoas que tornam esse trabalho possível.
Por fim, desejo que o futuro da restauração seja construído de forma cada vez mais coletiva, com espaço para diferentes gerações, saberes e experiências. Acredito na força das redes de colaboração e na capacidade de transformar conhecimento em ação. Se conseguirmos unir esses esforços e ampliar o compromisso da sociedade com a recuperação dos nossos ecossistemas, teremos condições de construir uma trajetória de restauração mais efetiva, inclusiva e duradoura.







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